] Mais sobre a palavra [
Eu não escrevo pelo que sei,
Eu escrevo pelo avesso.
É com palavras que tento furar meu reflexo,
Para que dele escorra
Alguma verdade de entendimento.
Escrevo pelo que me cala,
E o que me cala
É o que me dá voz.
] 15 de Julho de 2008 [
] Aforismeus [
Diverso. divirto. divirjo. dirijo. direito. direto. reto. ereto. repleto. afeto. completo: não.
(12/07/2008)
] Sobre a palavra [
Escrever,
É um pedir emprestado à língua
Palavra gasta para vestir o que certamente
Há de ficar em mangas curtas.
Pois há de nascer vestido.
Ler,
É despi-lo atento.
E penetrá-lo.
"Penetra surdamente no reino das palavras. (...)"
(Carlos Drummond de Andrade)
] 10 de Junho de 2008 [
] Mesóclises [
Contar-lhe-ei mesóclises para boi dormir.
E dormir-se-ão os bois quais carneirinhos.
Enquanto você: que não dorme,
Os há de contar.
Contar-los-á de dois em dois:
Por ser mais fácil, mais rápido e mais divertido.
Até que se lhe acabe de cabeça a tabuada.
Ou até que se lhe pegue o sono.
Porque o sono não tem mesóclises.
Nem a tabuada há de as ter,
Porquanto é de vezes que se faz uma tabuada.
E é por vezes
Que hão de roubar-lhe o sono.
Tantas vezes o acordar cedo vezes o horário vezes o trânsito vezes os prazos estourados daquele trabalho vezes os juros do banco vezes as contas vezes 12 meses para pagar e - se não paga - vezes os juros de novo vezes a burocracia que na vida há vezes a atenção aos amigos (se-lhe-os têm) vezes os problemas que cada um há de ter vezes as reclamações próprias vezes chegar em casa vezes fazer o jantar (se lhe falta quem o faça por si) vezes lidar com o tanto de tudo...
Que chega a ser difícil,
Por vezes,
Pegar-se-lhe o sono.
Por isso, contar-lhe-ei mesóclises simples como tais,
Que são só... Para boi dormir.
E acaso não durma,
(O que é bem provável)
Lembrar-se-á, ao menos,
Que mesóclises, ao contrário das irmãs,
Só são usadas muito às vezes,
Porque não cabem
Na rotina do discurso.
Contar-lhe-ei, por fim,
Que mesóclises abraçam a gente.
(09/06/08)
] Quando voltei [
Quando voltei pra mim
Voltei descalço pra pisar no chão.
Tapei algumas lacunas
Com o barro macerado
Pelos meus pés.
E trouxe nos bolsos
Os pedaços que encontrei dispersos
Pelos cantos
E sob o assoalho.
Agora reconcilio meus pedaços
Com o mesmo barro de que sou feito.
E com um abraço.
(06/06/2008)
] A coisa mais piegas que se poderia dizer sobre borboletas [
Se eu lhe contasse, você não acreditaria:
Havia borboletas no meu estômago.
O pior é que elas não saiam de lá!
Fizesse o que fizesse... lá estavam elas:
Lépidas, asas brilhantes a percutir o espaço úmido,
Sonoras e coloridas,
Fazendo a vez de prisma a mostrar-me o mundo
Em matizes multicoloridos - Coisa que não é -,
E desprendendo pólem dourado
Que dava uma fome de embrulhar o estômago.
Você não acreditaria:
Havia tantas a atordoar-me,
Que eu podia sentir sua reverberação até os intestinos.
E à noite, quando tudo estava quieto,
Elas não me deixavam descansar.
Algumas subiam à boca atentas, caso o telefone tocasse.
E não foram poucas as vezes
Em que, resignadas, foram dormir acompanhadas
Apenas pela sua necessidade.
Ainda que hoje eu consiga falar sobre as borboletas
(Não o faria para você, que sei: não me acreditaria),
Duvido que soubesse explicar exatamente,
Sem ziguezagues e algumas piruetas no discurso,
Como, em lugar escuro e úmido,
Puderam se entranhar.
Se tenho algo por certo, do pouco que sei de mim -
Afirmativa que poderia ser facilmente validada junto aos que me conhecem bem -
É que borboletas não fazem parte do meu menu.
Acho-as até bonitinhas aos olhos,
Mas do lado de fora.
E, ainda assim, com severas críticas
Ao seu abusado senso de liberdade.
Abusadas e sempre famintas,
As tais lepidópteras, já adolescentes,
(elas crescem rápido!)
Jaziam devidamente instaladas cá dentro,
Onde se alimentavam de saliva, suor, toque e abraço.
Era o que desejavam sempre.
E em demasia.
Naqueles dias, em que se ocupavam
Como inquilinas do meu estômago,
Gostavam de se banhar
Em suco-de-laranja-sem-gelo-e-sem-açúcar, café,
Entre outras iguarias.
E espiavam pelos meus olhos a certificar-se,
Pois - despudoradas - só se banhavam quando você estava aqui.
E era uma orgia.
Nesses momentos, parecia que as coisas tinham mais gosto.
E eu dizia e pensava
O que elas me ditavam ao ouvido,
Com suas línguas compridas,
Suaves e lânguidas: erínias a sussurrar-me seus delírios.
Quando eu estava só, no entanto,
Elas se recolhiam a um local seco
Na vastidão úmida que era eu,
Para sentir sede.
Eu esconjurava de sua loucura,
E secava também.
Se eu dissesse algo sobre a existência das borboletas,
Você me olharia com aquele sorriso de quem não crê.
Por isso hoje eu não lhe diria,
Ainda que insistisse,
Que o mais certo, é que tenham florescido
Por causa de você.
Foram plantadas aqui
Quando o terreno era fértil e eu andava distraído.
E se proliferaram como pragas oportunistas
Em paisagem que não lhes é própria.
Já eu, lhe tinha como paisagem complexa
Impressa num daqueles quebra-cabeças difíceis demais,
Indicados para maiores-de-sei-lá-quantos-anos...
Mas as borboletas...
Aqui vieram só pela paisagem.
Naqueles dias, eu que me julgava pequeno,
Diante de paisagem tão vasta e tão fragmentada,
Confuso, não me lembrava se tinha perdido alguma peça
Enquanto tentava montar um panorama de você.
As borboletas estavam ficando aflitas.
E insones.
Eu até ficava com dó, por que em tempos rarefeitos
De ar, de água e de afeto,
As borboletas, sedentas, passaram a se nutrir
Com o último mal da caixa de Pandora,
Aquele que ficou pra trás.
Era domingo quando você me disse aquilo.
Era domingo quando as borboletas fizeram refeição derradeira.
Era domingo quando me incomodaram pela última vez.
Fosse a veemência das palavras, fosse o meio,
Fosse as circunstâncias,
Fosse o cansaço... Tudo era tanto e foi demais.
Elas ouviram...
E gritaram.
Aquilo foi ensurdecedor.
Incendiadas pela fúria, cegas e vorazes,
Borbulharam em meu estômago
Como ácido a consumir-me o ventre.
As jovens, emergiam dos casulos metamorfoseadas
Em morcegos iridescentes
As velhas, serpenteavam queimando
E destroçando com asas afiadas
A retalhar o ventre, o coração
E todo o universo úmido
Que até então era eu.
Era domingo quando abri bem a boca
E não podendo conter mais o que me assomava
As entranhas,
Vomitei-as: dardos envenenados sobre meu alvo
Que era você.
A traquéia qual esgoto vociferando em enchente suja,
Jorrava desaforos de dar vergolha.
Então o que era eu?
Metamorfoseado em avatar das minhas próprias crias?
Eu era a encarnação nociva e apaixonada
De algo que se recusava a morrer,
Mesmo divisando na curva seguinte a garganta do abismo.
Era domingo quando, sem asas, eu caí.
E então o que era você?
Metamorfoseado em latrina do meu desgosto?
Você era espelho.
Era domingo quando supus ter virado estátua de sal.
...
Muitos domingos depois,
As feridas em casulo já quase cicatrizadas,
Lembro-me de ter perguntado
Se em mim restaria ainda algo de sublime.
...
Mais domingos depois,
Desintoxicação;
Remendos feitos à custa de tempo, paciência,
E amigos.
Sobre as borboletas,
Passei a reconhecê-las por aí,
A dançar nos olhos e nas bocas dos outros.
Eu olhava e sentia pena.
Deles e de mim.
Às vezes o que sentia
Era só um vazio no estômago.
Até que um dia eu perdoei.
A você, a mim,
Até as borboletas
Pelas asas que me deram.
E quando finalmente nos reencontramos,
Estrangeiros um ao outro,
Pouco menos do que amigos,
Para conversarmos sobre o céu, o inferno
E o purgatório de cada um,
Pareciam coisas de uma outra vida,
Fatos de um universo onde seres fantásticos
De asas coloridas habitavam.
E foi bom.
No entanto, duvido que eu soubesse
Explicar exatamente,
Sem ziguezagues e algumas piruetas no discurso,
Como foi que eu percebi,
A despeito de tanto veneno, ainda entranhados,
O presente dos casulos.
Sem dúvida, você não acreditaria na tese,
De que é justamente com medo de primavera que resolvi conservá-los.
Deixo-os à minha vista para que não dêem a florescer.
Pois é preciso lembrar
De que é muito perigoso alimentar borboletas.
No entanto, é aqui que lhes concedo asas.
Para que voem no espaço amplo da imaginação,
Que lhes é paisagem própria.
Para que dela façam morada,
E possam nos contar do quanto,
Apesar de tudo,
Ainda podemos ser sublimes.
E quem sabe até elas lhe digam
Com suas línguas compridas,
Suaves e lânguidas,
O que você - por minha boca -
Certamente não iria acreditar.
E talvez assim você acredite.
(18/01/07)
] Os bois [
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Ei-los todos:
Nas ancas: os rabos
A espantarem as moscas
Cotidianamente,
Pra lá e pra cá.
E sem dar por isso.
Os bois só ruminam
Por que é da sua natureza ruminar.
Eles passam o dia a fazer isso.
Mas os bois não ruminam a dúvida,
Eles não têm dúvidas.
Nem certezas.
Os bois são felizes!
Têm tudo o que desejam:
A relva, a ração de cada dia, o sal grosso,
A água em abundância...
E se não os têm, eles não reclamam.
E se reclamam, é só mugir o que fazem.
E ninguém sabe se aquele muxoxo
É propriamente uma reclamação.
Então os bois parecem felizes,
Mas eles não sorriem.
Os bois vêem a planície
Com olhos bovinos de quem se acostumou a ela.
Por isso eles não podem
Realmente ver a montanha,
Nem o que há por trás dela.
Para eles só há isto:
Uma vida de pasto, de rebanho
E de moscas.
Pra lá e pra cá.
Os bois não mudam de canal.
Sua programação é sempre a mesma
A deixá-los distraídos:
Redonda e brilhante como o sol,
Vista pela janela de suas bobas vidas.
E eles riem de si mesmos.
Nos olhos alheios,
Não se reconhecem refletidos.
Por que nem ao menos sabem
Que são bois.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Os bois não têm nome,
E se não os têm, "ninguém" é o que são.
Bois são "ninguéns"
Que estão ali por "alguéns".
Mas os bois,
embora "ninguéns",
Reconhecem o som de alguém que os toca:
Ôôôô... Ôôôô...
E seguem seu curso.
Talvez por isso,
Os bois são conduzidos.
Gentilmente ou não,
Eles vão pra onde os levarem.
"Para lá não posso ir,
Eis os cães a ladrarem!
Para cá também não,
Já sinto o chicote no lombo!"
Mas isto não é o que pensam,
Pois pensar não é do seu feitio.
Os bois não sabem ruminar pensamentos.
Mas o medo...
Este a natureza deu a todos
- Bois e não bois -
De graça.
Ao vir ao mundo
O pequeno novilho já aprendeu com os pais
- esperto esse novilho! -
O código do rebanho,
Ei-lo a saber: é só segui-lo.
Desde já, ele passa a exercer seu papel no mundo:
Ser um boi.
Para ser um boi tem que nascer boi,
Tem que mamar bastante pra ficar fortinho,
Tem que fazer cocô o tempo todo,
Espantar as moscas com o rabo,
E aprender a ruminar:
Capim, bagaço de cana...
Se for nascido de família nobre tem ração,
Casa chique, e quem lhe limpe os cascos,
Se não, ele é livre pra ser só boi.
Pode até morrer de velho!
Os chiques não.
Esses têm outra serventia na vida.
Mas obviamente não sabem disso.
Para estes - os chiques -
Sua função primaz é consumir e engordar.
("come filhinho, come... não perca tempo... aproveite já essa promoção!")
Para que depois
Sirvam-se-lhe da carne e do couro.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Se houvesse um dia,
Por milagre ou encantamento,
Que a um boi,
Fosse oferecida a dádiva
De deixar de sê-lo,
(claro está: à partir da consciência inicial de sê-lo)...
Agradaria ao boi
Deixar sua condição bovina?
E se dois bois pudessem conversar,
Entrementes à massa que muge,
O que diriam?
"A ração tá adulterada, vou reclamar no Procon!"
"Arre! Que os impostos estão altíssimos!"
"Pois é... aquela vaca me botou chifres..." (trocadilho infame)
E a resposta do outro:
"Tá difícil... mas que que vai fazer né!"
E sorrindo sem dentes -
Enquanto pisa na própria merda -
Na tranquilidade do pasto que nem é seu,
Ainda diria:
"Claro que tenho a esperança de um futuro melhor"...
E pisa na merda.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Como se reconhece um boi?
Dizem dos bois que são calmos e inofensivos.
Se são fortes ou se tem chifres?!
É um detalhe que de nada lhes vale.
Eles não sabem o quanto lhes poderia valer.
O certo é que precisam
De quem os conduza.
Um pastor que lhes dê alimento
E esperança,
("Que a paz esteja convosco").
E ainda lhes dizem
Que o trabalho enobrece o boi.
E que Deus ajuda a quem cedo madruga...
E puxa o arado,
E leva no lombo.
E (re)pisa na merda.
Assim, os bois,
Moídos pela engrenagem de seu contexto,
São convertidos em massa disforme:
Apascentados.
E desta forma, calmos e silentes:
À pasta assentados.
A esperar que lhe conduzam
Ao molho, ao pão, ao espeto,
(O inferno realmente existe para os bois!).
E finalmente ao estômago:
Dissolvidos, inanimados.
Agora é tarde pra deixar de ser boi.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Ei-los
Do estômago aos intestinos
Das latrinas aos esgotos
Dos esgotos ao mar
Do mar aos oceanos
E os oceanos...
Onde toda a escória do mundo há de se lavar
(em mares muitas vezes dantes navegados e cagados)
É ali
Que dissolvidos e inanimados,
Os bois,
Como moléculas de bois que foram -
Inconscientes à luz de suas bobas vidas
e acostumados, com os rabos
A espantarem as moscas -
É ali...
Que aprendem a nadar.
E passam a ruminar,
Sem gosto
As bolhas de ar,
Pra lá e pra cá.
Por isso orem ao Deus-dos-Bois,
Aos catedráticos,
Aos músicos e aos poetas -
Se O(s) crêem -
Para que lhes ofereça a dádiva,
Por milagre ou encantamento;
De verem ao menos a montanha,
Se assim o quiserem.
Orem mais
Ao Deus-dos-Bois,
Aos catedráticos,
Aos músicos e aos poetas -
Se O(s) crêem -
Para que essa paz bovina,
Macilenta e calma,
Pregada à cara como uma catarata
Em olhos acostumados
A churrascos em dias de domingo,
Se derreta
Como gordura velha:
Descartada.
Para que os bois:
Tão macios,
Tão pastantes,
Tão ruminantes,
Saibam que eles
Não precisam -
Embora tenham nascido bois -
Em vida de pasto, de rebanho
E de moscas,
Em bois continuar sendo.
Pra lá e pra cá.
(14/01/2008)
] O respirar - resposta a um amigo [
Prendi a respiração no vazio. E quando dei por mim, tudo estava igual, exceto pelo ar que era outro.
Prendi a respiração no vazio só pra deixar de ser cotidiano. E quando inspirei, tudo estava igual, exceto pelo que gestava cá dentro.
Prendi a respiração no vazio pra ser esponja de mim e de outros. E depois - encharcado - esvaziar-me pelos poros, escorrendo pelos dedos como chuva em articulações indefinidas. Atenuando-se em alguns pontos, agravando-se em outros, mas sempre imprevisível. Como agora, por exemplo.
Prendi a respiração no vazio por que é preciso inspiração pra continuar vivendo, "...pra tomar fôlego, pra se achar, pra lembrar que dia é hoje, pra voltar pro chão".(*)
E se atordoa, não é efeito colateral: respirar dói, a gente é que se esquece.
Tenho conversado comigo. E você só precisa usar os olhos e a pele para "ouvir" o que "temos" dito.
(*) citação: RM
] Pois a água há de lavar todas as coisas [
Hoje tomei as providências necessárias:
Cortei o cabelo para ficar mais bonito,
Comprei um tapete para a casa ficar mais aconchegante,
Aprumei a cama com fronhas e lençóis novos.
Como todos os dias, lavei a louça, a roupa e tirei o lixo.
E para sinalizar este dia como pré-feriado
De tarde, sem culpas, assisti a um filme
Depois não liguei para os poucos amigos
Nem os convidei para estarem à virada comigo.
Deixei tudo quieto, em silêncio respeitoso,
A esperar.
Observei-me na espera: não houve expectativa.
Não houve nada, nem o telefone tocou, nem à porta bateram.
Tanto melhor,
Poderei levar o meu plano à cabo.
Afinal, é possível morrer.
O que é esta festa senão a celebração de um tempo que fenece?
E ficamos felizes, pois é preciso morrer para dar espaço ao novo.
Após as onze horas,
Prepararei um banho de banheira
Meio morno e com bastante espuma.
Acenderei um incenso.
Haverá um cd tocando Chet Baker ou Bethânia.
(Sem saber, eles me farão companhia junto aos meus pensamentos)
O celular ao lado, caso alguém ainda se lembre.
Acaso toque, não deixarei de atender.
E também um livro. Será preciso cuidado para não afogá-lo.
Perto da meia-noite entrarei na banheira.
Para o brinde não comprei champagne.
Não há muito o que comemorar a não ser o óbvio.
Por isso, brindarei de mim pra mim: "saúde e sorte" com um copo d´água.
E como de costume - essa é a concessão que faço à regra - desejarei, à meia-noite,
Que seja um ano bom.
E quando os ponteiros tiverem se distanciado do que foi rumo ao que será,
Como fazem todos os dias a medir-nos o tempo,
Nesta hora levarei o meu plano à cabo.
Será o resgate de um ritual primitivo:
O retorno ao ventre materno.
Tudo acontecerá lentamente: primeiro os pés, as pernas, nádegas...
Depois os braços, o tórax, os ombros, o pescoço
E a cabeça: tudo submerso.
Tudo em silêncio.
Lá fora, enquanto os fogos estiverem a explodir, os cães a ganir, as pessoas a brindar,
Enquanto o céu estiver tremeluzindo em cores e em som ensurdecedor,
Aqui tudo será silêncio submerso.
Molhado e acolhedor.
Ficarei ali... pleno de ar,
Enquanto os ponteiros continuam seu percurso eterno.
E depois... me esvaziando, esvaziando...
Até que do rito, dada a necessidade, seja finalmente desperto.
"Debaixo d´água tudo era mais bonito,
Mais azul, mais colorido, só faltava respirar...
Mas tinha de respirar (...)". (Arnaldo Antunes)
Finalmente desperto...
Emergirei com a urgência dos ares,
Da vida a gritar: "ENGULA-ME!".
Eu o farei com a fome violenta de quem PRECISA
Agarrando-me ao alento como se só isso fosse
Não mais cego, não mais surdo
Mas molhado como vim ao mundo.
E agora quem sabe, mais acolhedor (?!)
E então,
Ensaboadas as angústias, esfregados os medos e enxaguado o coração,
(Pretendo não estendê-lo no varal. Não deve ficar exposto para não secar!),
Eis-me a lavar o corpo.
Lá fora ainda ouvirei os fogos, o som dos cães e o tilintar das taças,
Há se passado pouquissimo tempo!
Mas aí então, tudo será diferente...
Afinal, é possível renascer.
Ao amanhecer, após despertar entre lençóis novos,
De cabelos cortados, banho tomado,
Com a casa limpa e um tapete para quando quiser voar
(ou deitar para ver um filme),
A louça, convidativa para o primeiro café da manhã do ano,
Me olhará sorridente a perguntar: "onde estão os outros?".
Eu sorrirei, fingindo que não é comigo.
Nem mais alegre, nem mais triste,
E tomarei um copo d´água.
Será o dilúvio.
Pois a água há de lavar todas as coisas
Enquanto ainda é potável.
E eu estarei pronto para o vir-a-ser.
Sendo.
PS.: tudo se passou mais ou menos assim.
Nada está diferente, mas tudo bem. É só uma época de desejar coisas...
Pelo menos a imaginação... essa não paga aluguel.
(31/12/2007)
] Completamente incompleto [
Completamente incompleto
E demasiadamente estreito
Pra um querer tão grande.
É preciso calma sobretudo,
Em exercício diário,
De esperar apenas o possível;
De aceitar o que também se é.
Sendo.
De pesar-se menos.
De amar-se mais, não em demasia,
Mas o suficiente.
E sem pressa.
De rir-se de si
Quando constrangido, irritado,
Estafado ou ocupado.
E não ocupar-se tanto de tudo.
Aprender a fazer
Nada.
Por fim,
Mais tolerância com o tanto
De todo dia.
Quanto ao querer...
É bom saber que uma parte dele
Pertence apenas aos sonhos.
Quanto ao resto do querer...
Realizá-lo.
(21/10/2006)
] Não tenho nome [
Não tenho nome.
Não tenho cara.
Não tenho tempo.
Afora isto, sou para os outros a imagem que fazem de mim.
Esse nome.
Essa cara.
Esse tempo.
Uma idéia.
Mas não sou isto, nem aquilo.
Se quiser saber de mim,
Não me pressuponha.
Não me subestime.
Não me compare.
Não me en[quadre].
Não sou o que você pensa.
O meu peixe não está à venda.
Você poderá vê-lo.
Ao mergulhar, poderá tocá-lo.
Mas ele não te pertence.
Não sou o que você pensa.
A minha água é potável.
E ela parece fria enquanto ferve.
Gosto da língua portuguesa.
Mas não me basta o discurso vazio das doces bocas
Secas.
Eu preciso do som e do sal.
Tem que ter língua.
Tem que ter saliva.
Tem que ter pulso.
Tem que ter pulso.
Tem que ter pulso.
Agora
Tenho esse nome.
Tenho essa cara.
Tenho esse tempo.
Muitas idéias.
Mas se quiser saber de mim:
PRESTE ATENÇÃO!
do Lat. attentione
s. f.,
acto de atender;
aplicar o espírito fixamente em algo;
cuidado;
delicadeza;
cortesia;
.
(21/10/2006)