22 março 2014

] Anunciação [

Estive grávido. Estive grávido desde o ventre de minha mãe. Quando vim à luz, manteve-se à sombra essa gêmea envergonhada, de feições tão pálidas que não a perceberam quando veio comigo. O médico, dedicado a perceber apenas o que via, anunciou-me. Era um menino saudável: todos os cinco dedos em cada mão e em cada pé. E enquanto o meu grito de horror ao mundo era celebrado, essa pequena apenas sussurrava sua indizível existência. Enquanto eu me debatia feito peixe fora d’água, ela jazia deitada no leito do rio, ocupada em nascer depois.
Eu nasci grávido e estive grávido por toda a minha vida, sem, no entanto, me aperceber disto. Enquanto crescia tive desejos, os mais estranhos. Tive enjôos de dar dó. Tive as mais violentas crises. Olhei no espelho sem me reconhecer e me vi feio tantas vezes… E tantas vezes me senti pesado, alquebrado e cansado. Que chega a ser admirável que eu não tenha percebido antes que eu estive, desde sempre, irremediavelmente grávido.
Hoje me lembrei que, quando criança, éramos muito íntimos, eu e minha pequena gêmea. E digo desta forma porque, embora eu a carregasse e a gestasse, ela não era cria minha. Como eu, ela era cria da vida. E éramos tão um-no-outro que nunca cheguei realmente a me dissociar dela como um outro ser. Era sempre eu com a minha gravidade.
Com ela aprendi a habitar o silêncio, e nele, reconhecer os sons do meu coração. Vezes sem conta sentávamos nos fundos da escola e conversávamos tão longamente, quanto o recreio permitia, sobre assuntos de crianças velhas que éramos. Em outros momentos nos entretíamos com a trajetória das formigas até um formigueiro próximo. Observávamos o tempo que uma gota levava para se desprender de uma folha após a chuva, e eram muitas vidas a cair. Ouvíamos atentamente o rufar do vento nas árvores e o farfalhar das folhas, os volteios dos pássaros no céu, observávamos com interesse os insetos e sua dinâmica aparentemente caótica. Sobretudo, brincávamos de contar histórias e víamos as cores aonde elas não estavam. Víamos possibilidades em tudo, inventávamos brinquedos, desafios, heróis e vilões. A noite ela me permitia asas e eu sonhava que estava voando. Às vezes ela me deixava cair no sonho só para acrescentar à jornada um bocado de vida real.
Um pouco mais crescido ela me levava às bibliotecas, aonde podíamos fazer viagens mais longas, para um universo mítico e desconhecido. Ela me ensinou a estar comigo. Por meio dela aprendi a desenhar, a pintar, a ouvir música, mesmo que a música não estivesse lá. Com ela aprendi a delicadeza que há na vida. Mais tarde, aprendi outro tipo de histórias, daquelas que a gente aprende quando o corpo começa a mudar. Também aprendi que a gente pode amar alguém. Aprendi na sequência que a gente pode ferir, e se ferir, por amor, ou por falta dele. Depois, aprendi um pouco mais sobre a solidão e aprendi que a vida também é dor.
Foi para evitar a dor que resolvi desaprender. Criei personagem mais ao gosto do freguês e calei essa voz familiar que me queria ser quem eu era. Foi pra ser olhado que me deixei de olhar. Perdi-me de mim ao ignorar a minha gravidade. Me queria leve sendo denso, sem saber que só poderia sê-lo, aceitando a minha densidade. Recolhi para dentro de mim o que julgava ser grave, para estampar no rosto um sorriso sem estofo. Porque tive medo. E desde então, há anos me vejo suspenso em estado de urgência, onde busco aqui e ali senão uma resposta, mas um alívio para uma solidão implacável. Desde então se me apresenta uma falta de sentido, um vazio, que sempre houve, mas que agora escancara a sua boca com ganas de fome. Nada há que supra essa fome, nada há que suplante essa solidão. Toda alegria se contrai e todo o sentido se perde em meio a essa escuridão que a tudo engole. Resta apenas ansiedade quanto ao tempo.
Hoje, no entanto, me percebi grávido. E todo o vazio estava preenchido com uma presença que, nos últimos anos, esteve à sombra… envergonhada. Já nem me lembrava de suas feições pálidas e não a teria percebido não fosse um pequeno gesto: chutou-me de dentro pra fora. E como que lançado através de um espelho, vi-me. E me reconheci nela: minha gêmea não nascida, minha parte negada e vilipendiada, minha companheira de infância e velha amiga. Minha Melancolia.
Hoje, a permiti nascer com um sorriso. E com alegria a recebi em toda a sua gravidade. Deitei-me com ela à beira do meu rio, e pude ver a superfície se acalmar. Já não ando só. A partir de agora andaremos de mãos dadas, conversaremos e brincaremos juntos a todo tempo. Sinto que apesar de sua aparência pálida, é por causa dela que vejo e admiro as cores. Sinto que sua densidade me deita os pés ao chão, ao mesmo tempo me permitindo voar. Sinto que, por causa da minha Melancolia, o meu sorriso - embora comedido - é mais verdadeiro.
Aviso que não me tentem adormecer a Melancolia, é quando brinco com ela que me vejo mais acordado.
Com ela me reconheço mais humano. Com ela silencio a solidão para olhar o mundo com olhos de poeta. Através dela, revivo a criança que fui e adoto o seu olhar interessado nos detalhes do mundo que ninguém vê. Com ela, posso ver as pessoas além do meu preconceito e por ela, sei-me delicado, ferido, mas intensamente vivo.
E que ninguém me tente salvar, pois não sei desabrochar sem ser à flor da pele.

] 22 de Março de 2014 [

1 Comentários:

Anonymous Vol disse...

Que lindo Edu, muito melhor é estar acompanhado, e não tomado, por nossos parceiros invisiveis ;)

13 de abril de 2014 às 12:37  

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