] Pois a água há de lavar todas as coisas [
Hoje tomei as providências necessárias:
Cortei o cabelo para ficar mais bonito,
Comprei um tapete para a casa ficar mais aconchegante,
Aprumei a cama com fronhas e lençóis novos.
Como todos os dias, lavei a louça, a roupa e tirei o lixo.
E para sinalizar este dia como pré-feriado
De tarde, sem culpas, assisti a um filme
Depois não liguei para os poucos amigos
Nem os convidei para estarem à virada comigo.
Deixei tudo quieto, em silêncio respeitoso,
A esperar.
Observei-me na espera: não houve expectativa.
Não houve nada, nem o telefone tocou, nem à porta bateram.
Tanto melhor,
Poderei levar o meu plano à cabo.
Afinal, é possível morrer.
O que é esta festa senão a celebração de um tempo que fenece?
E ficamos felizes, pois é preciso morrer para dar espaço ao novo.
Após as onze horas,
Prepararei um banho de banheira
Meio morno e com bastante espuma.
Acenderei um incenso.
Haverá um cd tocando Chet Baker ou Bethânia.
(Sem saber, eles me farão companhia junto aos meus pensamentos)
O celular ao lado, caso alguém ainda se lembre.
Acaso toque, não deixarei de atender.
E também um livro. Será preciso cuidado para não afogá-lo.
Perto da meia-noite entrarei na banheira.
Para o brinde não comprei champagne.
Não há muito o que comemorar a não ser o óbvio.
Por isso, brindarei de mim pra mim: "saúde e sorte" com um copo d´água.
E como de costume - essa é a concessão que faço à regra - desejarei, à meia-noite,
Que seja um ano bom.
E quando os ponteiros tiverem se distanciado do que foi rumo ao que será,
Como fazem todos os dias a medir-nos o tempo,
Nesta hora levarei o meu plano à cabo.
Será o resgate de um ritual primitivo:
O retorno ao ventre materno.
Tudo acontecerá lentamente: primeiro os pés, as pernas, nádegas...
Depois os braços, o tórax, os ombros, o pescoço
E a cabeça: tudo submerso.
Tudo em silêncio.
Lá fora, enquanto os fogos estiverem a explodir, os cães a ganir, as pessoas a brindar,
Enquanto o céu estiver tremeluzindo em cores e em som ensurdecedor,
Aqui tudo será silêncio submerso.
Molhado e acolhedor.
Ficarei ali... pleno de ar,
Enquanto os ponteiros continuam seu percurso eterno.
E depois... me esvaziando, esvaziando...
Até que do rito, dada a necessidade, seja finalmente desperto.
"Debaixo d´água tudo era mais bonito,
Mais azul, mais colorido, só faltava respirar...
Mas tinha de respirar (...)". (Arnaldo Antunes)
Finalmente desperto...
Emergirei com a urgência dos ares,
Da vida a gritar: "ENGULA-ME!".
Eu o farei com a fome violenta de quem PRECISA
Agarrando-me ao alento como se só isso fosse
Não mais cego, não mais surdo
Mas molhado como vim ao mundo.
E agora quem sabe, mais acolhedor (?!)
E então,
Ensaboadas as angústias, esfregados os medos e enxaguado o coração,
(Pretendo não estendê-lo no varal. Não deve ficar exposto para não secar!),
Eis-me a lavar o corpo.
Lá fora ainda ouvirei os fogos, o som dos cães e o tilintar das taças,
Há se passado pouquissimo tempo!
Mas aí então, tudo será diferente...
Afinal, é possível renascer.
Ao amanhecer, após despertar entre lençóis novos,
De cabelos cortados, banho tomado,
Com a casa limpa e um tapete para quando quiser voar
(ou deitar para ver um filme),
A louça, convidativa para o primeiro café da manhã do ano,
Me olhará sorridente a perguntar: "onde estão os outros?".
Eu sorrirei, fingindo que não é comigo.
Nem mais alegre, nem mais triste,
E tomarei um copo d´água.
Será o dilúvio.
Pois a água há de lavar todas as coisas
Enquanto ainda é potável.
E eu estarei pronto para o vir-a-ser.
Sendo.
PS.: tudo se passou mais ou menos assim.
Nada está diferente, mas tudo bem. É só uma época de desejar coisas...
Pelo menos a imaginação... essa não paga aluguel.
(31/12/2007)


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