] Palavra-Flecha [
A palavra da qual me arrependi Foi justamente a que não veio. Pois era de lugar estrangeiro E tão distinto! Que se veio, De tão diferente que era Não a reconheci.
Essa palavra me constrange Porquanto posso admirá-la nas bocas alheias. Mas na minha não. Pois não ouso tocá-la com os lábios. Ainda que ardentemente a queira neles. E talvez por isso mesmo Ela me irrite tanto.
De fato, agora confesso, Já me foi lançada aos ouvidos Como flecha --> Por tanta gente boa! De grande coração E ombros largos a ostentá-la: De orgulho e de proeza!
Mas sempre me pareceu inverídica, Ao passo que mesmo à porta dos ouvidos, Não me cabia neles.
Tal palavra, que de tanto zêlo Meus ouvidos tinham ao tocá-la Tornavam-na assim: de lugar distante. Flecha sem direção. Eco de espelhos. Refletida apenas pelo hábito da boca dos outros: Ávidos em dizê-la.
E meus ouvidos... Tão desejosos de ouvi-la E assim tão cansados! Não podiam escutá-la Tocá-la. Sorvê-la... Degustá-la.
Até que um dia percebi: A palavra é como um imã Que precisa de outro polo Que a receba.
De outro modo, Será flecha lançada sem direção de gosto, Solitária e estrangeira, Abandonada ao seu trajeto.
E não fará sentido algum. Se não reverberar também Pela minha língua.
Penso que de minha parte Nunca a repeli, Apenas... Não achei em mim O colo que a recebesse.
A palavra da qual me arrependi Foi justamente a que não veio. Pois se vinha, Tinha que ser de aqui. É que então eu, Que de tão indistinto E tão inconsciente que era... Não a compreendi.
Mas há de vir o dia Em que ela virá: Daqui e de lá.
E nós, Homens de grande coração, Palavra honesta E ombros largos a ostentá-la, Teremos a grande sorte De flechas lançadas Com gosto E rumo certo. Entrelaçando-se Magnéticas, Sinérgicas!
E será uma grande festa.
Até que uma delas Um dia emudeça. Sem arrependimentos. Mas satisfeita Por ter vivido.
]04 de Junho de 2012 [

