] Os bois [
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Ei-los todos:
Nas ancas: os rabos
A espantarem as moscas
Cotidianamente,
Pra lá e pra cá.
E sem dar por isso.
Os bois só ruminam
Por que é da sua natureza ruminar.
Eles passam o dia a fazer isso.
Mas os bois não ruminam a dúvida,
Eles não têm dúvidas.
Nem certezas.
Os bois são felizes!
Têm tudo o que desejam:
A relva, a ração de cada dia, o sal grosso,
A água em abundância...
E se não os têm, eles não reclamam.
E se reclamam, é só mugir o que fazem.
E ninguém sabe se aquele muxoxo
É propriamente uma reclamação.
Então os bois parecem felizes,
Mas eles não sorriem.
Os bois vêem a planície
Com olhos bovinos de quem se acostumou a ela.
Por isso eles não podem
Realmente ver a montanha,
Nem o que há por trás dela.
Para eles só há isto:
Uma vida de pasto, de rebanho
E de moscas.
Pra lá e pra cá.
Os bois não mudam de canal.
Sua programação é sempre a mesma
A deixá-los distraídos:
Redonda e brilhante como o sol,
Vista pela janela de suas bobas vidas.
E eles riem de si mesmos.
Nos olhos alheios,
Não se reconhecem refletidos.
Por que nem ao menos sabem
Que são bois.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Os bois não têm nome,
E se não os têm, "ninguém" é o que são.
Bois são "ninguéns"
Que estão ali por "alguéns".
Mas os bois,
embora "ninguéns",
Reconhecem o som de alguém que os toca:
Ôôôô... Ôôôô...
E seguem seu curso.
Talvez por isso,
Os bois são conduzidos.
Gentilmente ou não,
Eles vão pra onde os levarem.
"Para lá não posso ir,
Eis os cães a ladrarem!
Para cá também não,
Já sinto o chicote no lombo!"
Mas isto não é o que pensam,
Pois pensar não é do seu feitio.
Os bois não sabem ruminar pensamentos.
Mas o medo...
Este a natureza deu a todos
- Bois e não bois -
De graça.
Ao vir ao mundo
O pequeno novilho já aprendeu com os pais
- esperto esse novilho! -
O código do rebanho,
Ei-lo a saber: é só segui-lo.
Desde já, ele passa a exercer seu papel no mundo:
Ser um boi.
Para ser um boi tem que nascer boi,
Tem que mamar bastante pra ficar fortinho,
Tem que fazer cocô o tempo todo,
Espantar as moscas com o rabo,
E aprender a ruminar:
Capim, bagaço de cana...
Se for nascido de família nobre tem ração,
Casa chique, e quem lhe limpe os cascos,
Se não, ele é livre pra ser só boi.
Pode até morrer de velho!
Os chiques não.
Esses têm outra serventia na vida.
Mas obviamente não sabem disso.
Para estes - os chiques -
Sua função primaz é consumir e engordar.
("come filhinho, come... não perca tempo... aproveite já essa promoção!")
Para que depois
Sirvam-se-lhe da carne e do couro.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Se houvesse um dia,
Por milagre ou encantamento,
Que a um boi,
Fosse oferecida a dádiva
De deixar de sê-lo,
(claro está: à partir da consciência inicial de sê-lo)...
Agradaria ao boi
Deixar sua condição bovina?
E se dois bois pudessem conversar,
Entrementes à massa que muge,
O que diriam?
"A ração tá adulterada, vou reclamar no Procon!"
"Arre! Que os impostos estão altíssimos!"
"Pois é... aquela vaca me botou chifres..." (trocadilho infame)
E a resposta do outro:
"Tá difícil... mas que que vai fazer né!"
E sorrindo sem dentes -
Enquanto pisa na própria merda -
Na tranquilidade do pasto que nem é seu,
Ainda diria:
"Claro que tenho a esperança de um futuro melhor"...
E pisa na merda.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Como se reconhece um boi?
Dizem dos bois que são calmos e inofensivos.
Se são fortes ou se tem chifres?!
É um detalhe que de nada lhes vale.
Eles não sabem o quanto lhes poderia valer.
O certo é que precisam
De quem os conduza.
Um pastor que lhes dê alimento
E esperança,
("Que a paz esteja convosco").
E ainda lhes dizem
Que o trabalho enobrece o boi.
E que Deus ajuda a quem cedo madruga...
E puxa o arado,
E leva no lombo.
E (re)pisa na merda.
Assim, os bois,
Moídos pela engrenagem de seu contexto,
São convertidos em massa disforme:
Apascentados.
E desta forma, calmos e silentes:
À pasta assentados.
A esperar que lhe conduzam
Ao molho, ao pão, ao espeto,
(O inferno realmente existe para os bois!).
E finalmente ao estômago:
Dissolvidos, inanimados.
Agora é tarde pra deixar de ser boi.
Ei-los todos:
Bobos e gordos.
Bois macios,
Bois pastantes,
Bois ruminantes.
Ei-los
Do estômago aos intestinos
Das latrinas aos esgotos
Dos esgotos ao mar
Do mar aos oceanos
E os oceanos...
Onde toda a escória do mundo há de se lavar
(em mares muitas vezes dantes navegados e cagados)
É ali
Que dissolvidos e inanimados,
Os bois,
Como moléculas de bois que foram -
Inconscientes à luz de suas bobas vidas
e acostumados, com os rabos
A espantarem as moscas -
É ali...
Que aprendem a nadar.
E passam a ruminar,
Sem gosto
As bolhas de ar,
Pra lá e pra cá.
Por isso orem ao Deus-dos-Bois,
Aos catedráticos,
Aos músicos e aos poetas -
Se O(s) crêem -
Para que lhes ofereça a dádiva,
Por milagre ou encantamento;
De verem ao menos a montanha,
Se assim o quiserem.
Orem mais
Ao Deus-dos-Bois,
Aos catedráticos,
Aos músicos e aos poetas -
Se O(s) crêem -
Para que essa paz bovina,
Macilenta e calma,
Pregada à cara como uma catarata
Em olhos acostumados
A churrascos em dias de domingo,
Se derreta
Como gordura velha:
Descartada.
Para que os bois:
Tão macios,
Tão pastantes,
Tão ruminantes,
Saibam que eles
Não precisam -
Embora tenham nascido bois -
Em vida de pasto, de rebanho
E de moscas,
Em bois continuar sendo.
Pra lá e pra cá.
(14/01/2008)


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