19 julho 2008

] A coisa mais piegas que se poderia dizer sobre borboletas [


Se eu lhe contasse, você não acreditaria:
Havia borboletas no meu estômago.
O pior é que elas não saiam de lá!
Fizesse o que fizesse... lá estavam elas:
Lépidas, asas brilhantes a percutir o espaço úmido,
Sonoras e coloridas,
Fazendo a vez de prisma a mostrar-me o mundo
Em matizes multicoloridos - Coisa que não é -,
E desprendendo pólem dourado
Que dava uma fome de embrulhar o estômago.

Você não acreditaria:
Havia tantas a atordoar-me,
Que eu podia sentir sua reverberação até os intestinos.
E à noite, quando tudo estava quieto,
Elas não me deixavam descansar.
Algumas subiam à boca atentas, caso o telefone tocasse.
E não foram poucas as vezes
Em que, resignadas, foram dormir acompanhadas
Apenas pela sua necessidade.

Ainda que hoje eu consiga falar sobre as borboletas
(Não o faria para você, que sei: não me acreditaria),
Duvido que soubesse explicar exatamente,
Sem ziguezagues e algumas piruetas no discurso,
Como, em lugar escuro e úmido,
Puderam se entranhar.

Se tenho algo por certo, do pouco que sei de mim -
Afirmativa que poderia ser facilmente validada junto aos que me conhecem bem -
É que borboletas não fazem parte do meu menu.
Acho-as até bonitinhas aos olhos,
Mas do lado de fora.
E, ainda assim, com severas críticas
Ao seu abusado senso de liberdade.

Abusadas e sempre famintas,
As tais lepidópteras, já adolescentes,
(elas crescem rápido!)
Jaziam devidamente instaladas cá dentro,
Onde se alimentavam de saliva, suor, toque e abraço.
Era o que desejavam sempre.
E em demasia.

Naqueles dias, em que se ocupavam
Como inquilinas do meu estômago,
Gostavam de se banhar
Em suco-de-laranja-sem-gelo-e-sem-açúcar, café,
Entre outras iguarias.
E espiavam pelos meus olhos a certificar-se,
Pois - despudoradas - só se banhavam quando você estava aqui.
E era uma orgia.

Nesses momentos, parecia que as coisas tinham mais gosto.
E eu dizia e pensava
O que elas me ditavam ao ouvido,
Com suas línguas compridas,
Suaves e lânguidas: erínias a sussurrar-me seus delírios.

Quando eu estava só, no entanto,
Elas se recolhiam a um local seco
Na vastidão úmida que era eu,
Para sentir sede.
Eu esconjurava de sua loucura,
E secava também.

Se eu dissesse algo sobre a existência das borboletas,
Você me olharia com aquele sorriso de quem não crê.
Por isso hoje eu não lhe diria,
Ainda que insistisse,
Que o mais certo, é que tenham florescido
Por causa de você.

Foram plantadas aqui
Quando o terreno era fértil e eu andava distraído.
E se proliferaram como pragas oportunistas
Em paisagem que não lhes é própria.

Já eu, lhe tinha como paisagem complexa
Impressa num daqueles quebra-cabeças difíceis demais,
Indicados para maiores-de-sei-lá-quantos-anos...
Mas as borboletas...
Aqui vieram só pela paisagem.

Naqueles dias, eu que me julgava pequeno,
Diante de paisagem tão vasta e tão fragmentada,
Confuso, não me lembrava se tinha perdido alguma peça
Enquanto tentava montar um panorama de você.
As borboletas estavam ficando aflitas.
E insones.

Eu até ficava com dó, por que em tempos rarefeitos
De ar, de água e de afeto,
As borboletas, sedentas, passaram a se nutrir
Com o último mal da caixa de Pandora,
Aquele que ficou pra trás.

Era domingo quando você me disse aquilo.
Era domingo quando as borboletas fizeram refeição derradeira.
Era domingo quando me incomodaram pela última vez.

Fosse a veemência das palavras, fosse o meio,
Fosse as circunstâncias,
Fosse o cansaço... Tudo era tanto e foi demais.
Elas ouviram...
E gritaram.

Aquilo foi ensurdecedor.

Incendiadas pela fúria, cegas e vorazes,
Borbulharam em meu estômago
Como ácido a consumir-me o ventre.
As jovens, emergiam dos casulos metamorfoseadas
Em morcegos iridescentes
As velhas, serpenteavam queimando
E destroçando com asas afiadas
A retalhar o ventre, o coração
E todo o universo úmido
Que até então era eu.

Era domingo quando abri bem a boca
E não podendo conter mais o que me assomava
As entranhas,
Vomitei-as: dardos envenenados sobre meu alvo
Que era você.
A traquéia qual esgoto vociferando em enchente suja,
Jorrava desaforos de dar vergolha.

Então o que era eu?
Metamorfoseado em avatar das minhas próprias crias?
Eu era a encarnação nociva e apaixonada
De algo que se recusava a morrer,
Mesmo divisando na curva seguinte a garganta do abismo.
Era domingo quando, sem asas, eu caí.

E então o que era você?
Metamorfoseado em latrina do meu desgosto?
Você era espelho.

Era domingo quando supus ter virado estátua de sal.

...

Muitos domingos depois,
As feridas em casulo já quase cicatrizadas,
Lembro-me de ter perguntado
Se em mim restaria ainda algo de sublime.

...

Mais domingos depois,
Desintoxicação;
Remendos feitos à custa de tempo, paciência,
E amigos.
Sobre as borboletas,
Passei a reconhecê-las por aí,
A dançar nos olhos e nas bocas dos outros.
Eu olhava e sentia pena.
Deles e de mim.
Às vezes o que sentia
Era só um vazio no estômago.

Até que um dia eu perdoei.
A você, a mim,
Até as borboletas
Pelas asas que me deram.

E quando finalmente nos reencontramos,
Estrangeiros um ao outro,
Pouco menos do que amigos,
Para conversarmos sobre o céu, o inferno
E o purgatório de cada um,
Pareciam coisas de uma outra vida,
Fatos de um universo onde seres fantásticos
De asas coloridas habitavam.
E foi bom.

No entanto, duvido que eu soubesse
Explicar exatamente,
Sem ziguezagues e algumas piruetas no discurso,
Como foi que eu percebi,
A despeito de tanto veneno, ainda entranhados,
O presente dos casulos.

Sem dúvida, você não acreditaria na tese,
De que é justamente com medo de primavera que resolvi conservá-los.
Deixo-os à minha vista para que não dêem a florescer.
Pois é preciso lembrar
De que é muito perigoso alimentar borboletas.

No entanto, é aqui que lhes concedo asas.
Para que voem no espaço amplo da imaginação,
Que lhes é paisagem própria.
Para que dela façam morada,
E possam nos contar do quanto,
Apesar de tudo,
Ainda podemos ser sublimes.

E quem sabe até elas lhe digam
Com suas línguas compridas,
Suaves e lânguidas,
O que você - por minha boca -
Certamente não iria acreditar.

E talvez assim você acredite.

(18/01/07)

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