04 junho 2012

] Palavra-Flecha [

A palavra da qual me arrependi
Foi justamente a que não veio.
Pois era de lugar estrangeiro
E tão distinto!
Que se veio,
De tão diferente que era
Não a reconheci.

Essa palavra me constrange
Porquanto posso admirá-la nas bocas alheias.
Mas na minha não.
Pois não ouso tocá-la com os lábios.
Ainda que ardentemente a queira neles.
E talvez por isso mesmo
Ela me irrite tanto.

De fato, agora confesso,
Já me foi lançada aos ouvidos
Como flecha -->
Por tanta gente boa!
De grande coração
E ombros largos a ostentá-la:
De orgulho e de proeza!

Mas sempre me pareceu inverídica,
Ao passo que mesmo à porta dos ouvidos,
Não me cabia neles.

Tal palavra, que de tanto zêlo
Meus ouvidos tinham ao tocá-la
Tornavam-na assim: de lugar distante.
Flecha sem direção.
Eco de espelhos.
Refletida apenas pelo hábito da boca dos outros:
Ávidos em dizê-la.

E meus ouvidos...
Tão desejosos de ouvi-la
E assim tão cansados!
Não podiam escutá-la
Tocá-la. Sorvê-la...
Degustá-la.

Até que um dia percebi:
A palavra é como um imã
Que precisa de outro polo
Que a receba.

De outro modo,
Será flecha lançada sem direção de gosto,
Solitária e estrangeira,
Abandonada ao seu trajeto.

E não fará sentido algum.
Se não reverberar também
Pela minha língua.

Penso que de minha parte
Nunca a repeli,
Apenas...
Não achei em mim
O colo que a recebesse.

A palavra da qual me arrependi
Foi justamente a que não veio.
Pois se vinha,
Tinha que ser de aqui.
É que então eu,
Que de tão indistinto
E tão inconsciente que era...
Não a compreendi.

Mas há de vir o dia
Em que ela virá:
Daqui e de lá.

E nós,
Homens de grande coração,
Palavra honesta
E ombros largos a ostentá-la,
Teremos a grande sorte
De flechas lançadas
Com gosto
E rumo certo.
Entrelaçando-se
Magnéticas, Sinérgicas!

E será uma grande festa.

Até que uma delas
Um dia emudeça.
Sem arrependimentos.
Mas satisfeita
Por ter vivido.

]04 de Junho de 2012 [

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