] Pena [
Há muito que ela não imprime mais as palavras na alma: delicada folha de papel translúcido.
Sobre ti minha tinta escorrega e borra. Mea culpa: Se minha imagem te parece borrões, é pelo meu excesso.
Findo-me devido a um entupimento. De tão cheio transbordo e já nao canalizo as palavras.
Hoje, de tão cheia, a pena me pesa ao coração.
] 06 de Junho de 2014 [
] Sob a Palavra [
] Ato 1 [
A palavra amordaça o que em mim grita.
A palavra aperta o que em mim esgarça.
A palavra quer encaixar o que em mim não cabe.
A palavra deita o que em mim é vertical.
A palavra tem começo, meio e fim.
A palavra resume o que em mim sobra...
E sangra pelos espaços entre.
] Intermezzo [
A palavra é um incômodo: a pedra no sapato.
E, no entanto, o próprio sapato.
] Ato 2 [
Sem a palavra, o que em mim grita, seria apenas loucura.
Sem a palavra, o meu esgarçamento seria a perdição de quem se afoga.
Sem a palavra, o que em mim não cabe, também não caberia no mundo.
Sem a palavra - o que em mim é vertical - seria vertigem, por não tocar o chão.
A palavra em mim é sempre começo. É meio para que eu me Seja. E noção de fim para que, sob ela, eu não finde.
A palavra só resume
Para que eu continue sangrando.
] 04 de Junho de 2014 [
] Sol Maior [
Tenho várias cores.
É bem provável que vc não goste de algumas delas.
Umas são leves e delicadas como aquarelas,
Outras viscosas e densas feito óleo de Caravaggio.
Umas não podem ser vistas a olho nu,
Por que seus pigmentos demoram-se a fixar na tela do tempo:
O sal aguçará os seus matizes.
Sou de nuances e contrastes:
Posso ser revolto como em Van Gogh,
Agradável como em Monet,
Líquido como em Dalí.
Alguns dos meus dias são de esfumatos renascentistas,
Outros, de arco-íris impressionistas.
Às vezes me vejo decupado como em Picasso,
Outras recomposto em mármore:
Escultura grega sem a perfeição incluída.
E para sempre ali.
Minhas cores não são de ser clássico nem moderno.
Estou mais para um barroco que insiste em não ser museu.
Meu tom é em Sol maior,
Por que mesmo as tintas mais escuras
Precisam de luz para darem-se à vista.
De repente uma cor me sorri!
E eu me vejo inteiro nesse som da manhã.
] 12 de maio de 2014 [
] Enquanto isso, no deserto... [
Tem um oásis dentro do deserto da gente. Encontrá-lo parece ser o único antídoto contra a sede que produz miragens. O difícil é passar pelo vento que arrasta nossas convicções...
Gosto do vento mas ele amortece os sentidos, a areia turva a visão e seca a garganta. E não adianta beber das miragens, que só fazem aumentar a sede.
Encontrar a água que brota de dentro pra fora é condição para que se torne jardim.
] 02 de abril de 2014 [
] Casulo [
Percebi que a minha coberta tem cor de casulo.
E ela se enrola em mim com tanta maciez que às vezes é difícil nascer.
] 24 de março de 2014 [