] Primeira pessoa do singular, às vezes a última [
eu que tenho mãe, que tenho pai, que tenho irmãos.
eu que tenho colegas e grandes amigos.
eu que trabalho, que estudo, que pago as minhas contas.
ainda que deva no cartão (provavelmente porquê nunca fui bom em matemática).
eu que me atraso, que me esqueço, que me canso; que anoiteço quase sem sono.
eu que odeio acordar cedo.
eu que vou com a barriga cheia e às vezes vou com fome mesmo.
eu que dependo de transporte coletivo.
eu que tenho pressa.
eu que me esforço pra lembrar: das datas, das pessoas, dos compromissos e contas a pagar.
eu que me divirto, mas não sei rir de piadas.
que sei jogar xadrez, mas não sei jogar truco.
eu que gosto de ouvir histórias.
eu que me emociono.
eu que fico doente: diarréia, náusea, fungo, gripe, enxaqueca, dor-de-garganta...
eu que convalesço.
eu que tenho espinhas, que tenho o cabelo rebelde, que não tenho o corpo que se vê na tv.
eu que sou só gente.
eu que fico feliz, triste e às vezes deprimido.
eu que tenho as minhas piras e preocupações.
eu que tenho medo.
eu que desespero, que dramatizo, que me atrapalho.
que complexifico ao tentar simplificar. que me explico. que me erro.
eu que me tento entender.
eu que tive amores,
que passei pelas dores da perda e do luto.
que carrego estrias, fissuras, cicatrizes.
eu que remendei os cacos.
eu que bobo: continuo amando.
eu que não amei a quem me queria (poderia?).
que provoquei estrias, fissuras e cicatrizes.
eu que perdi. e tão perdido: aturdido.
eu que tenho fome (de que?). eu que tenho sede...
eu que saboreio o doce e o amargo, e ainda quero o ardido, o azedo e o salgado.
eu que quero o cheiro, o toque, o gosto... eu que subo pelas paredes.
eu: homem aranha.
eu que devoro livros, que devoro filmes, que devoro pessoas.
eu que sou alimento.
eu que sou devorado pelos dias e por aquilo que me mantêm pulsante.
eu que oxído.
eu que odiando esperar, ainda espero... espero... espero.
eu que me repito.
eu que às vezes não me tolero de mau humor.
tenho pena dos que também me precisam tolerar.
eu que tenho o meu limite e a minha medida.
e às vezes passa.
eu que me olho no espelho.
às vezes me achando feio, às vezes me achando "guapo".
às vezes queria só o avesso.
eu que passei a vida em "8 ou 80", descubro, abismado, os espaços "entre".
eu que fui criança, adolescente, adulto e velho.
eu que continuo sendo.
eu que preciso tanto. de tanto e de tão pouco.
eu que acalento sonhos. eu que anseio até nausear.
eu que falo demais por não saber o que dizer, nem onde, nem como. talvez quando.
eu que sigo gritando.
eu que falo palavrão e fico esperando para ver a reação dos outros.
eu que falo palavrão simplesmente por quê dá vontade mesmo.
ou por quê o computador deu pau.
eu de saco-cheio.
eu que não assimilo a regra dos "porquês".
eu que desconheço quase tudo, ainda que lhes tenha alguma intuição.
eu que aprendi a rir passada alguma tristeza; dependendo da hora... não acho muita graça.
eu que fico tenso por não saber relaxar, às vezes sou pego de surpresa por um relax qualquer.
eu que me assusto.
eu que tento e continuo tentando.
às vezes desisto, às vezes retomo; na maior parte das vezes adio e deixo pra última hora.
e às vezes a hora passa.
eu que nem sempre colho o que plantei. eu que nem sempre planto.
eu que me ausento.
eu que rumino a dúvida: na escolha das roupas, na confeitaria, na vitrine das lojas, na videolocadora...
às vezes descubro, indignado, o quanto me equivoco.
eu que em minhas respostas, trago muitas perguntas.
eu que, se não as tenho: as invento. ou pego emprestado.
eu que estou nas ruas, virando a esquina ou atravessando fora da faixa.
eu que estou nos shoppings, nas livrarias, nos cafés, nos 1,99...
ou passeando nos mercados a analisar embalagens. e indignado com os preços.
eu que corri na chuva cheio de sacolas.
eu fora das janelas.
eu que na balada dancei ao seu lado.
eu que estava atrás de você na fila do banco.
eu que não estou suando na academia. mas estive.
eu que não estou nem aí.
eu que estou por ai.
eu que me mudei.
e que me mudo sempre.
eu que tenho talentos e virtudes.
eu que tenho defeitos e manias.
que sou irritantemente contraditório, inclusive aqui.
eu que sinto demais, e às vezes de menos...
eu que tenho camadas, facetas, reflexos.
eu igual, eu diferente, eu nada-a-ver.
eu: de repente.
eu que tenho mãe, que tenho pai, que tenho irmãos.
eu que tenho colegas e grandes amigos.
eu que sou todos eles.
eu que sou tanta gente.
eu nesse mundo.
eu que "não sei se a vida é pouco ou demais pra mim"
por hora, finjo estar satisfeito.
por hora, não sinto frio.
por hora, a fome passa.
por hora, não estou só.
por hora, tenho tempo.
(enquanto isso em Casablanca: "sempre teremos Paris")
eu: no discurso.
enquanto isso, na batcaverna ou em outro lugar,
eu: primeira pessoa do singular, respiro.
e por hora isto basta.
(16/12/2007)


1 Comentários:
eis um belo tratado de identidade pessoal... nos mostra como somos pessoas semelhantes em nossas diversidades... ao tempo que somos desemelhantes de nós mesmos...
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