] Fantasmas [
Crer em fantasmas
Como coisa real que não se vê,
Que não se toca, que não se cheira,
E mesmo assim sabê-los,
Em esgar:
No arrepiar dos pêlos do corpo.
Crer em fantasmas
É o que me assombra.
Crer em fantasmas
Como um arrastar de correntes que se movem mudas pelo encanamento,
E sabê-los nas veias como coisa real e pegajosa,
Onde a ausência mais cruel se expõe: nua, qual amante fiel,
Que se enlaça lânguida e fria, no regaço do corpo onde não mora mais ninguém.
Exceto eu.
É dessa presença constante,
Que de noite me enamoro.
Crer em fantasmas
Como suores noturnos que afloram à pele:
Desejo mórbido por espectros,
Que habitam as lembranças dos ex-amores.
Lá onde o passado, à espreita,
Sussurra na solidão dos cantos da casa:
Culpas, agravos.
E saudade.
Crer em fantasmas
É visitar suas lápides com anseio,
Emoldurando frases que ardem feito tapa na cara.
Crer em fantasmas
É sempre oferecer a outra face.
Crer em fantasmas
É ter um grito empacado nas entranhas,
É maldição auto-imposta, pedido de socorro natural,
Onde não há eco no oco de mim.
Crer em fantasmas
É o que me faz refém.
É um esperar que torna a vida vã.
Crer em fantasmas
É descontentamento. É medo da solidão presente.
É ter na esperança o alimento de mortos-vivos.
Crer em fantasmas,
É acreditar no cadáver.
É não se despedir.
Nunca.
(14/05/2008)


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