10 novembro 2008

] Músculo de cera [


Avesso ao tempo das coisas,
Distendo o músculo que implica
- Imprudente cobrança -
Na fisgada do ermo vazio que persiste,
Mesmo em conhecida e tênue descrença
No gostar.

Em tempo das coisas
Que se desejam,
A não realização na contrapartida
Do provável,
É labirinto sem fio de Ariadne.
E há que se perguntar:
"Por quê"?

Para os outros, no entanto,
O mais fácil é que se deixe
Seco.
E pra mais tarde é que se deixe...
E eu cedo.

Mas neste jardim é outono cravado
De vento nas pedras.
Que arrasta em assovio melancólico
O só da folha desprendida.
Ela viaja porque não tem chuva.
E se deita porque esperou demais.

Era tarde
Quando descobri,
Que o que se acrescenta
Ao não do outro,
É mais meu do que dele.
Ainda assim, custo a acreditar
Que seja sina,
A escolha por ausência dolorida
Em véu de desespero.
Na paleta a cor sem matiz real,
E sem sabor no músculo desidratado.
Ei-lo exposto.

Constatei que
Não importa a sede que se sinta,
Desde que não seja consigo.
Não importa se do oco que há na caixa
Exista a potência da vida.
O que sempre dizem sobre isso é:
"Calma".

Pois saiba,
Que não existe calma na miragem de Ícaro.
Nem tampouco existe calma enquando ele despenca.
Mesmo assim,
Não há que se ter pena!
Acaso era ele ignorante do risco
Quando vertiginou-se ao calor dos braços de Apolo
E do abraço caiu prostrado?

Minha escolha sempre foi esta:
Dá-me asas de cera,
Homem velho.
Acaso chamo-lhe Deus, existência ou destino,
Porquanto eu viva
Antes que a tua velhice me alcance.
Porque quero o ser pulsante em mim:
Fora do cárcere.

Dá-me esse músculo de cera
E uma miragem para que eu derreta em desvario.
Porque é custoso
Estar seco, sendo úmido.

E deixe a calma
Para quando eu estiver morto.

(14/07/08)

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